DIÁRIO DE UMA CADEIRANTE Minhas Histórias

Perdi alguém

O ano era 1998. Nessa época tinha 19 anos e já cursava o segundo período da faculdade de Serviço Social. Morávamos em quatro pessoas: eu, minha mãe, meu padrasto e o meu irmão do meio Carlos Henrique.

Carlos Henrique passou sua infância e parte da adolescência no Nordeste. Ele foi criado pelos meus avós maternos e já estava conosco há algum tempo. Me recordo bem que a adaptação dele à cidade grande não foi fácil, pois foi criado em costumes e normas diferentes, mas seus sonhos e objetivos lhe trouxeram para o Rio de Janeiro.

A minha relação com ele era normal de irmãos, entre briguinhas e muito carinho… Rsrs

Me lembro que por diversas vezes, ajudava minha mãe nas tarefas de casa e a cuidar de mim. Tomava conta direitinho, fazia meu café, meu almoço e até penteava meus cabelos. Ahhhhh saudade… Ele era muito presente e carinhoso.

Ele cresceu e se tornou um rapaz trabalhador e bem responsável. Muito vaidoso mantinha seu corpo bem defino adquirido através de horas e horas na academia. Era muito namorador e adorava sair para dançar…dança é coisa da família amamos dançar… Rsrsrs!

Meu irmão querido!

Meu irmão querido!

Apesar da pouca idade, ele já tinha realizado um dos seus sonhos que era comprar uma moto, estava todo satisfeito por ter conseguido com seu mérito, seu esforço.

Era uma sexta a noite e como era de costume ele sair pra dançar, estranhei ele dizer

Acho que não vou sair hoje”.

Eu disse sorrindo:

Até parece… Rsrsrs”.

Ele estava com preguiça mesmo.

Nessa noite havia uma amiga aqui em casa e estávamos todos conversando quando de repente ele começou se arrumar pediu até para minha amiga passar a roupa dele. Em minutos os amigos já começaram a chamar e lá estava ele pronto pra fazer o que mais gostava dançar! Ele se despediu e saiu…

Quando já era madruga, todos em casa dormiam, escuto pessoas chamando no portão. Na hora achei estranho e meu padrasto foi atender. Eram os amigos do meu irmão pedindo pra minha mãe ir busca-lo no hospital, pois ele havia caído de moto.

Minha mãe na hora, disse que não ia, e falou pra ele vir pra casa pois ela tinha avisado. Minha mãe sempre foi contra ele comprar moto. Foram inúmeras vezes que ela havia pedido pra ele vender e comprar um carro. Ele compreendeu e disse que no próximo ano iria trocar a moto por um automóvel.

Bem minha mãe pediu então para meu padrasto ir busca-lo, enquanto isso eu estava simplesmente me acabando de chorar, pois ouvia tudo na minha cama e sentia que algo havia acontecido. Minha mãe entrou no quarto e perguntou por que estava chorando. Eu só chorava não conseguia dar uma palavra. Ela me dizia “calma ele já tá vindo”. Ela via que não me acalmava, me arrumou, me colocou na cadeira e fiquei esperando por ele…

Quando vejo meu padrasto voltando sozinho, meu coração apertou, vi que o meu desespero tinha uma explicação.

Meu padrasto conversou com minha mãe e disse que ele estava machucado. Era pra ela ir para o hospital. Como era bem pertinho de casa em menos de cinco minutos chegamos lá. Me lembro de ver muitos amigos dele na porta da emergência e quando entrei vi um enfermeiro com um saco transparente com umas roupas e um tênis. Na hora reconheci seus pertences. Nesse momento um médico já tinha dado a notícia pra minha mãe que estava aos prantos sendo amparada. Eu por minutos nem conseguia ter uma reação. Só sentia uma dor que nunca havia tido. Conheci o pior sentimento que podemos ter: o da PERDA!

Nunca estamos preparados para perder, ainda mais alguém que amamos, que convivemos. Ele tinha 24 anos e perdeu sua vida em um acidente de moto fatal, estava sem capacete, um ônibus ultrapassou o sinal vermelho e pegou em cheio sua moto. Ali foi o fim dos todos os seus sonhos e objetivos na cidade grande.

Sou muito grata de ter o conhecido e convivido com ele apesar do pouco tempo!

Sobre o autor

rampadeacesso@whm.criatudo.com

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